Segunda-feira,
31 outubro de 2005 - 07:21
A internet tem dono? Pelo caráter descentralizado da rede
mundial de computadores, é de se supor que ninguém,
nem um país controle a web.
Mas
para que um usuário digite uma URL em vez de números
IP, a internet precisa de um administrador, uma espécie
de síndico capaz de cuidar dos aspectos técnicos
da rede mundial de computadores.
Os
Estados Unidos têm sido o administrador da internet
desde desde que a web foi criada como um projeto militar nos
anos 60.
Mas
um grande número de países, como Brasil, China, Índia
e, mais recentemente, a União Européia, está contestando
o controle norte-americano sobre a internet.
Eles
argumentam que a internet transformou-se numa ferramenta global
de comunicação e o motor do crescimento
econômico mundial e que por isso não pode ser
controlada pelos Estados Unidos. Em linguagem técnica,
há uma batalha pela governança na internet.
Os EUA contra-argumentam, a favor de manter seu controle, que
um órgão controlado pelas Nações
Unidas poderia politizar a internet, adicionar burocracia e
acabar com o espírito inovador da rede, segundo uma
reportagem do Wall Street Journal.
O tema vai esquentar durante a Cúpula Mundial da Sociedade
da Informação, que acontece em Túnis, na
Tunísia, entre 16 e 18 de novembro, quando o modelo de
gestão da internet será colocado em xeque.
ICANN
Quem gerencia a internet é uma entidade não governamental:
a Organização da Internet para Designação
de Nomes e Números (ICANN, da sigla em inglês),
um entidade privada, que conta com 21 membros em seu board, do
qual dois são brasileiros, Vanda Scartezini e Demi Getschko.
(Veja a lista, clique aqui)
A ICANN é responsável por aprovar e fazer a distribuição
de nomes de domínios, tais como o .com ou .o net), entre
outras atribuições técnicas que garantem
que os usuários naveguem pela internet. Ela opera sob
um contrato com o governo dos Estados Unidos e sob as leis do
Estado da Califórnia.
Por isso, o governo dos Estados Unidos, por meio do Departamento
de Comércio, tem poder de veto sobre as decisões
da ICANN, como foi o caso da criação do domínio
.xxx, para sites pornográficos, que teve objeções
do governo Bush.
Nos Estados Unidos também estão localizados dez
dos 13 servidores raiz (dois estão na Europa e um no Japão).
Eles são o grande centro nevrálgico do acesso da
web, pois sabem onde um computador tem que ir para achar o endereço
de outra máquina.
Em tese, os EUA têm o poder de tirar um país da
internet ou mesmo decidir sobre o que é chamado de TLD
(top level domain), como o .br. E não há nenhum
organismo para se reclamar das decisões ou vetos norte-americanos.
DISPUTA
Como a internet "funciona" sob os auspícios
dos Estados Unidos, um grupo de países, do qual o Brasil
faz parte, vem há anos defendendo a criação
de um organismo multilateral para controlar a internet.
A grande diferença, dessa vez, é a postura da União
Européia que, de forma surpreendente, manifestou-se contra
a atual governança na internet.
"
A posição européia não pretende que
os governos tomem controle da internet, como se tem sugerido",
afirmou Viviane Redin, comissária para a Sociedade da
Informação, em entrevista ao jornal espanhol El
Pais.
A solução européia consiste na criação
de um novo modelo baseado em respeitar o papel o ICANN e, ao
mesmo tempo, criar um fórum complementar que de um maior
papel aos governos, desde que respeite os princípios que
se baseiam a itnernet, explicou Viviane Redin.
Em resumo, a Europa propõe um meio-termo entre o unilateralismo
defendido pelos Estados Unidos e o mutilateralismo de Brasil,
China e Índia.
O governo dos Estados Unidos já se manifestou contrário
a posição européia e diz que vai lutar contra
a proposta, para manter seu controle histórico, o que
deve gerar um impasse diplomático na reunião de
Túnis, na Túnisia.
Qual a sua opinião sobre o controle da internet? Mande
sua opinião para fale@idgnow.com.br.
(Fontes consultadas para esta reportagem: Demi Getshko, membro
do Comitê Gestor da Internet no Brasil e do ICANN; e
Seiiti Arata Junior, integrante da secretaria do WGIG - Working
Group on Internet Governance -, que fez sugestões de
modelos de governança para reunião de Túnis,
na Túnisia, e advogado especializado em TI da Felsberg
e Associados).
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